O Pôr do Sol
7 de Abril de 2005
Estranho… pensou. E os seus olhos emoldurados pelas rugas de tanto Sol coar piscaram e olharam uma outra vez o horizonte.
Hum… estranho, muito estranho. Subiu as escadas de caracol para o topo do farol tentando obter assim uma melhor perspectiva mas, chegado lá, a cena não se tinha modificado. Acendeu o cachimbo e sentou-se no banco de madeira que habitualmente usava para trepar às enormes lentes do farol quando as limpava e deixou-se ali ficar por uns instantes, pensativo.
Enquanto a tarde descia pelo céu, relembrou algumas horas da sua vida: quando o Chico lhe roubou a fisga e partiu os vidros da padaria e quem apanhou uma sova de cinto foi ele, a namorada, única que teve, de corpo e alma, com quem casou mais tarde na mesma igreja onde a esperava todos os domingos, o filho que lhes nasceu e que agora é Doutor na América, os camaradas do barco em que passou a maior parte da sua vida até o acidente o mandar para o farol, a tropa passada na Guiné e os seus mortos, brancos e pretos, o pôr do sol… que hoje não era igual.
Despertou da sonolência que o tinha embriagado e olhou uma vez mais o horizonte.
Estranho… pensou que talvez fosse o fim ou que os Russos andassem por ali ou que os Americanos andassem com mais experiências ou que a aguardente estivesse estragada. Desceu e caminhou pela areia que nunca mais acabava certificando-se assim da evidência que tanto estranhava.
Hoje não iria, pela primeira vez em décadas, acender o farol. Calmo, sentou-se. Tornou a encher o cachimbo e, enquanto ajeitava o tabaco olhou uma vez mais o horizonte semicerrando os olhos.
Nada… Tinha em tempos ouvido histórias de monstros marinhos, de peixes que encantavam, sereias e afins, tinha durante a sua curta meninice – que cedo começou na faina – alimentado a sua imaginação com imagens de sangue suor e lágrimas, berros da proa à popa, gente que corria na coberta à procura de salvação de um tenebroso perigo qualquer enquanto vagas fustigavam as redes pendentes que baloiçavam a um ritmo louco enquanto o barco subia e descia, voando arritmias que voavam estômagos borda fora.
Tinha provado o sal e o Sol e as refeições a bordo curtidas em copos de vinho e bagaço para aquecer, a camaradagem que não se esquece, a mão que salva no instante da queda, os olhos já velhos que o afastavam rudemente da borda “tem calma rapaz, tens tempo para isto” e o mandavam para a camarata dormir um pouco, o cabaz que lhe era dado no fim da noite e que orgulhosamente levava à mãe.
Mas isto, isto era diferente.
Desceu as escadas de caracol e sentou-se à mesa abrindo o jornal na página das palavras cruzadas. Era um hábito solitário que o ajudava a pensar nas longas horas de solidão. Já sabia quase todas de cor e cada vez mais os Jornais repetiam as fórmulas. Chegou ele próprio a desenhar alguns diagramas mas perdeu a paciência e voltou a usar o jornal para se entreter. Chateou-se rapidamente e, após um último olhar ao horizonte que continuava a desafiar a sua inteligência, resolveu deitar-se. Amanhã tudo teria passado, estaria de certeza a sonhar.
Dirigindo-se ao pequeno catre onde dormia (todas as noites sentia a falta do balançar que o adormecia) atirou o jornal para cima da mesa com nódoa de azeite e vinho.
Ficou virada para cima a 1ª página do jornal que, nesse dia, dizia em letra de forma
“Mar: Portugal perde a Zona Económica Exclusiva.”
