À Hora da Minha Morte
6 de Junho de 2005
Olhava para o meu avô procurando amigos no obituário do jornal.
Página a página, cigarro fumegante na boca torcida pela trombose, ia contando colegas de escola, companheiros de brincadeira e de trabalho, imbecis que lhe fizeram a vida negra, mulheres que desejou e, de quando em quando, soltando um baixinho “Olha, olha, quem morreu… tão novo…” e eu olhava para a fotografia de um velho, olhava para ele de seguida e pensava que não, que não era assim tão novo.
Nessa altura, tinha mais para viver que o vivido – o saldo era ainda francamente positivo e a coluna do “haver” era muito mais preenchida que a do “deve”…
Entretanto, começaram a morrer pessoas que eu próprio conhecia.
A primeira morte de que me lembro foi a uma menina minha vizinha (já não recordo o seu nome, recordo um balaústre onde uma ocasião fiquei com a cabeça presa – truques da memória) que foi a enterrar teria eu aí uns 6 ou 7 anos de idade.
Não me recordo dos pormenores, exceptuando este: era fria, amarga e cheirava a qualquer coisa que poderia ter sido viva mas agora estava morta. Constatei tudo isto com um beijo no seu cadáver que me fizeram dar.
A segunda morte que recordo foi a do meu primo no Ultramar – o Rangel de quem só lembro a fotografia – e que não esqueci nunca mais, apesar de não me lembrar dele, de crer nem sequer tê-lo conhecido. Foi, apesar disso, o meu primeiro contacto pessoal com a Guerra.
Não me recordo do funeral do meu avô, melhor, de nenhum dos meus avós.
Foram pessoas muito queridas para mim.
O último a morrer, andava eu na tropa e a única coisa que recordo é o meu Primeiro, o Sargento Gomes, a dizer “Teixeira: deixaste alguém doente em casa?”
“Não, meu Primeiro” , respondi. Ele andou em volta de mim – tinha mandado sentar-me, coisa rara no mundo da tropa. “Bom… passa-se que…” , hesitou e passou-me um toque de ordem para a mão. “Olha pá: o teu avô morreu. Vai a casa que tens 3 dias”.
Do que me lembro a seguir é de voltar a entrar no quartel.
Morreu mais gente, tenho visto muita morte: velhos que morrem, novos que morrem, amigos de infância a morrer cada vez mais cedo… e, engraçado, de cada vez que a pessoa é importante para mim, não me lembro de nada.
Mais: praticamente esqueço a pessoa.
Estranha esta memória selectiva.
Estranha esta negação da morte: quase que penso que, em vez de morrer, a pessoa nunca existiu.
“Quando eu morrer” é uma frase que digo com naturalidade, sem problemas de maior a não ser a leve tristeza, a leve frustração de deixar de existir.
A não-existência.
O não-ser.
O “para quê tudo isto?” que se forma involuntariamente nos lábios.
A visão de Mário Sá Carneiro acerca de “morrer enquanto somos belos”.
Mas também sei que, não tarda, hei-de estar atento ao obituário do jornal murmurando “Olha quem morreu…” e desejando sempre mais um dia.
E, na inevitabilidade da coisa, só desejo lucidez na velhice e leveza na morte.
Só há um tipo de morte que me assusta: a morte solitária.
Gostava de ter companhia na hora da partida.
Gostava de morrer de olhos abertos a ver os que amo.
Gostava de morrer de mão dada com os meus.
Espero conseguir.
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" Eu nao tenho medo de morrer, mas de ver morrer. Eu nao tenho medo de sofrer, mas de ver sofrer."
A morte é a unica certeza que temos nesta vida. Pq custa tanto entao? Pq custa. Mesmo que se encare com alguma naturalidade a morte e fales dela de uma forma ligeira, quando te deparas com ela ou com o espectro dela, perdes a valentia. Acho que nunca estamos preparados. Nem para a nossa, nem para a dos outros.
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A morte é a unica certeza que temos nesta vida. Pq custa tanto entao? Pq custa. Mesmo que se encare com alguma naturalidade a morte e fales dela de uma forma ligeira, quando te deparas com ela ou com o espectro dela, perdes a valentia. Acho que nunca estamos preparados. Nem para a nossa, nem para a dos outros.
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