Senhor P.
13 de Fevereiro de 2005
Este fim-de-semana morreu gente.
Foi um fim-de-semana prolongado e a morte aproveitou para fazer, de uma vez, uma varredela.
Foram, de uma assentada, personalidades com que cresci, gente que, de uma forma ou outra, por afinidade ou contradição, moldaram muito do que sou hoje.
Vasco Gonçalves, homem de Abril, militar que acreditou na política, na mudança social, no caminho para o Futuro… de uma ou outra forma, não vou criticá-lo aqui.
Foi, antes de mais, um Homem que acreditou ser possível, traçou o caminho e tentou percorrê-lo.
Álvaro Cunhal, o último bastião da Revolução Socialista.
Sobre este Homem é complexo falar.
Anti-fascista lutador, 12 anos de prisão – oito dos quais em isolamento –, uma vida dedicada à Causa.
Sem lucro próprio a não ser o de ver a História fazer-se, também, pelas suas mãos.
Homem político, escritor, pintor, entre muitas outras complexidades decerto desconhecidas pois nunca se fez conhecer.
Eugénio de Andrade, o Homem que cantou as Mães e as vísceras, o amor e os fluidos, a morte e a carne sempre com o mesmo timbre de quem vê ao longe.
Escreveu, antes de mais, o contacto com o maravilhoso que é a vida na sua mais bruta essência.
Todos eles morreram, todos eles vão ser, de certeza, saudade no coração de muitos.
Mas houve mais mortes.
O Sr. P, meu vizinho, morreu.
O Sr. P era homem na casa dos 60, andava pela vida com vagar – ultimamente empurrando o carrinho de bebe do seu neto rua acima, rua abaixo –, nem sequer recordo de alguma vez tê-lo ouvido falar.
Calculo que não tenha nunca saído dos limites da rua.
Era apagado, estranhamente apagado e só passados para aí 10 anos de viver onde vivo é que comecei a cumprimentá-lo com um “bom dia” a que ele me respondia, às vezes, com um ligeiro acenar de cabeça.
O que sei do Sr. P? Mais nada.
Via-o a levar o neto, a dar comida aos cães vadios, sentado à sombra na rua com o seu banquinho… nada mais.
Creio que, algures cá dentro, o desprezava.
Pois bem: sexta, dia 10, o Sr. P foi ao bar da Fanfarra (a minha fonte de arrelias e desesperos), calculo que falar com alguém ou simplesmente tomar um café (acho que também nunca o vi a tomar café), saiu e dirigiu-se a casa.
Lá chegado, enforcou-se.
Não sei mais pormenores.
O Sr. P, durante algum tempo há-de viver ainda nas nossas consciências.
Na dele, não.
A dele deixou de existir.
Porquê um enforcamento?
Porquê o suicídio?
Não sei.
Acho que nunca vou saber, nem sei se quero.
Fico assim, a pensar quem seria realmente o Sr. P.
Acho que, tarde demais e sem saber exactamente porquê, começo a mudar a minha opinião sobre ele.
Afinal, o homem pensava, sentia, vivia… já não.
Não tentou o suicídio, executou-o.
Não se salvou, não foi salvo.
Eugénio de Andrade, o Homem que cantou as Mães e as vísceras, o amor e os fluidos, a morte e a carne sempre com o mesmo timbre de quem vê ao longe.
Escreveu, antes de mais, o contacto com o maravilhoso que é a vida na sua mais bruta essência.
Todos eles morreram, todos eles vão ser, de certeza, saudade no coração de muitos.
Mas houve mais mortes.
O Sr. P, meu vizinho, morreu.
O Sr. P era homem na casa dos 60, andava pela vida com vagar – ultimamente empurrando o carrinho de bebe do seu neto rua acima, rua abaixo –, nem sequer recordo de alguma vez tê-lo ouvido falar.
Calculo que não tenha nunca saído dos limites da rua.
Era apagado, estranhamente apagado e só passados para aí 10 anos de viver onde vivo é que comecei a cumprimentá-lo com um “bom dia” a que ele me respondia, às vezes, com um ligeiro acenar de cabeça.
O que sei do Sr. P? Mais nada.
Via-o a levar o neto, a dar comida aos cães vadios, sentado à sombra na rua com o seu banquinho… nada mais.
Creio que, algures cá dentro, o desprezava.
Pois bem: sexta, dia 10, o Sr. P foi ao bar da Fanfarra (a minha fonte de arrelias e desesperos), calculo que falar com alguém ou simplesmente tomar um café (acho que também nunca o vi a tomar café), saiu e dirigiu-se a casa.
Lá chegado, enforcou-se.
Não sei mais pormenores.
O Sr. P, durante algum tempo há-de viver ainda nas nossas consciências.
Na dele, não.
A dele deixou de existir.
Porquê um enforcamento?
Porquê o suicídio?
Não sei.
Acho que nunca vou saber, nem sei se quero.
Fico assim, a pensar quem seria realmente o Sr. P.
Acho que, tarde demais e sem saber exactamente porquê, começo a mudar a minha opinião sobre ele.
Afinal, o homem pensava, sentia, vivia… já não.
Não tentou o suicídio, executou-o.
Não se salvou, não foi salvo.
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Imagino-o... o enorme alheamento que descreves é causa para me sentir um menino de mamã, pois que constato neste caso que o sofrimento de que padeço não será talvez assim tão grande como por vezes o sinto.
Costuma-se dizer que quando há ameaças de suicídio, tudo não passa de um grito de ajuda.
Ele não ameaçou, fez.
Não queria ajuda nenhuma... porquê?
Suponho que é mais uma questão das que ficam sem resposta.
Vou pensar no Sr.P durante uns dias, isso é certo.
Costuma-se dizer que quando há ameaças de suicídio, tudo não passa de um grito de ajuda.
Ele não ameaçou, fez.
Não queria ajuda nenhuma... porquê?
Suponho que é mais uma questão das que ficam sem resposta.
Vou pensar no Sr.P durante uns dias, isso é certo.
bom... os nossos problemas são sempre os mais difíceis, são sempre maiores que os dos outros.
as nossas tragédias são, a maior parte das vezes, as únicas verdadeiramente justificáveis.
quantos morrem ou matam em nome de coisas como, por exemplo, o ciúme?
e fazem-no apesar de verem, todos os dias gente que, a morrer de fome, tenta a todo o custo viver... e, às vezes, sorri.
é normal, acho.
mas o suicídio não é solução.
além de irreversível, não acaba com o problema. acaba com quem o tem. simplesmente.
e continuo a achar que, quando merremos, simplesmente deixamos de existir... puf!
não é solução.
o que me fascina neste assunto é a aparente calma e paz que este homem vivia - esta é uma história verídica - e a forma como este pôs um fim à sua própria existência...
medo? doença? desgosto? finanças?
nunca o saberei, como digo, não quero saber.
s calhar foi por isso... demasiada gente a não querer saber.
abraço.
[pôrra! agora fiquei deprimido.]
as nossas tragédias são, a maior parte das vezes, as únicas verdadeiramente justificáveis.
quantos morrem ou matam em nome de coisas como, por exemplo, o ciúme?
e fazem-no apesar de verem, todos os dias gente que, a morrer de fome, tenta a todo o custo viver... e, às vezes, sorri.
é normal, acho.
mas o suicídio não é solução.
além de irreversível, não acaba com o problema. acaba com quem o tem. simplesmente.
e continuo a achar que, quando merremos, simplesmente deixamos de existir... puf!
não é solução.
o que me fascina neste assunto é a aparente calma e paz que este homem vivia - esta é uma história verídica - e a forma como este pôs um fim à sua própria existência...
medo? doença? desgosto? finanças?
nunca o saberei, como digo, não quero saber.
s calhar foi por isso... demasiada gente a não querer saber.
abraço.
[pôrra! agora fiquei deprimido.]
Carlos...entre ontem à tarde e esta madrugada, passei um tempo, escrevendo acerca "das portas fechadas", que se passeavam, pedindo: quem me abre?
era desta solidão que eu falava, sabes? Terminei o post, tristemente, escrevendo" e esperam a salvação"...
tambem era desta salvação que eu falava...acredito que se te tivesse vindo ler, já não o teria escrito...mas confesso que não te li e que por isso não é plágio!
...o que escrevi foi fruto de dois dias com a minha mãe, em consultas medicas, nas ruas de Lisboa... vendo a minha mãe e vendo os outros...Lisboa cada vez tem mais solitarios, mais portas fechadas, mais olhares vazios e issso sente-se...
Se acreditas em empatias, então esta sim foi uma empatia, forte, uma coincidencia, tambem muito forte...tão forte como a compaixão que nos leva a escrever...
um pedido de desculpas, mas não te tinha lido mesmo!
Espero que acredites.
Van
era desta solidão que eu falava, sabes? Terminei o post, tristemente, escrevendo" e esperam a salvação"...
tambem era desta salvação que eu falava...acredito que se te tivesse vindo ler, já não o teria escrito...mas confesso que não te li e que por isso não é plágio!
...o que escrevi foi fruto de dois dias com a minha mãe, em consultas medicas, nas ruas de Lisboa... vendo a minha mãe e vendo os outros...Lisboa cada vez tem mais solitarios, mais portas fechadas, mais olhares vazios e issso sente-se...
Se acreditas em empatias, então esta sim foi uma empatia, forte, uma coincidencia, tambem muito forte...tão forte como a compaixão que nos leva a escrever...
um pedido de desculpas, mas não te tinha lido mesmo!
Espero que acredites.
Van
por vezes 'são excelentes actores' ng vê, nem eles.
por vezes ultrapassada a fronteira, a linha do salto nem existe, só quem esteve no caos entende, os abençoados que aprenderam a dar valor a vida.
sempre a fugir heim Carlos :)
por vezes ultrapassada a fronteira, a linha do salto nem existe, só quem esteve no caos entende, os abençoados que aprenderam a dar valor a vida.
sempre a fugir heim Carlos :)
van: já ninguém inventa nada.
nem eu devo ter inventado este texto.
nós somos apenas esponjas, não das que apagam, mas das que absorvem.
tenho a certeza que não me plagiaste... não mereço tal honra.
eu vou já la ver o que escreveste.
inbluesY: sempre!
beijos às duas!
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nem eu devo ter inventado este texto.
nós somos apenas esponjas, não das que apagam, mas das que absorvem.
tenho a certeza que não me plagiaste... não mereço tal honra.
eu vou já la ver o que escreveste.
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