O Mundo a Cores

25 de Abril de 2004 A páginas tantas o Senhor Director veio à nossa sala da 4ª Classe no Externato S. João Bosco, em Matosinhos, segredou à Senhora Professora que, atarantada nos levou para a Sala Principal (aquela onde aos Sábados íamos ver slides sobre a vida de S. João Bosco e dos missionários) e aí nos fez sentar. Consternada, fez o anúncio do dia: “Meninos, hoje sucedeu uma coisa e vocês vão ter que fazer tudo o que eu disser” – o Senhor Director andava para um lado e para o outro, nervoso e esfregando as mãos – a Senhora Professora continuou: “Vou ligar agora aos vossos paizinhos para vos virem buscar… vocês não saem daqui e prometem que não abrem a porta a ninguém, está bem?” Assentimos em uníssono enquanto eu, preocupado por não ter telefone em casa, não sabia exactamente o que fazer. Tudo se passou rapidamente a partir daí – os pais começaram a chover em catadupa e ai meu Deus agora o que vai ser, desculpe Senhora Professora mas se calhar o meu menino amanhã não vem… é capaz de ser perigoso – e eu à espera. Ganhei coragem – juntei-me ao Farinha que já tinha para aí uns 12 anos – e fomos os dois perguntar o que se passava. A Senhora Professora fez um sinal com o indicador junto aos lábios “Chiu” e segredou: “Houve uma coisa… os tropas prenderam o Senhor Presidente do Conselho…” e logo jovial: “Mas não se preocupem, Deus Nosso Senhor há-de nos proteger!” Entretanto chegou o meu Pai, vinha a correr desde a tipografia. Aparentemente tinha sabido da notícia pela rádio. Deu-me um beijo e fomos de mão dada, à presa, para casa. “Pai, o que se passa?” O meu Pai, sempre a nadar disse, com alguma excitação: “Houve uma Revolução.” Chegados a casa ligamos a televisão. Barbudos, cabelos grandes, boina mal posta, abraçavam-se à população nas ruas – as chaimites, meu Deus, as chaimites eram a menina dos meus olhos – haviam cravos e as pessoas riam. Nunca tinha visto algo assim. Caíam gavetas, secretárias e papéis de janelas e o meu Pai dizia-me “Vês, ali era a PIDE…”. “O que é a PIDE?”. O meu Pai, já um pouco cansado explicava: “É a Polícia que andava os antifascistas para o Tarrafal, até os torturava… eram como cães…” , e eu pensava como nunca tinha sabido dessas coisas. “Ó Pai, mas o que andam os soldados a fazer na rua? Porque é que eles têm cravos nas armas? Porque é que há festa? Porque…” “É a Liberdade! É a Liberdade, filho.” Fiquei sem perceber. Então os meus Pais sentaram-se comigo e com o meu irmão e explicaram: “Liberdade é poderes falar como quiseres, saíres à rua e dizeres a tua opinião, poderes ser quem quiseres. Até ontem, não podias fazer isso senão ias preso. Há gente que, por ser contra o Governo, ia para ao Tarrafal e era torturada, mesmo morta…” Fiz contas rápidas. Gostava dessa palavra: Liberdade. Fiquei nesse momento a saber que não a tinha, que ia passar a tê-la. Gostei da sensação. Fiquei a saber palavra novas: Fascismo, Comunismo, Socialismo, MFA – esta que tanto repeti, quase até à exaustão – coleccionei os autocolantes de quase todos os Partidos, e eram tantos! Fiquei também a saber que não iria para o Ultramar que já me tinha levado dois primos e isso, só isso, chegou para eu acolher efusivamente as notícias. A Senhora Professora acolheu-nos no dia seguinte com um ar estranho. Tudo bem, estávamos em Democracia - outra palavra nova – mas tínhamos que ter cuidado com algumas coisas: Não renegar a Deus, ter respeito ao Pai e à Mãe, e sobretudo, muito cuidado com os Socialistas e com os Comunistas pois esses eram perigosos. Deu-nos uma receita prática: Todos os partidos que tivessem a cor vermelha eram comunistas e eram perigosos – até matavam os velhinhos com uma injecção atrás da orelha e roubavam os filhos aos pais – por isso, não queria que ostentássemos autocolantes, cartazes, fosse o que fosse dessa cor. O Senhor Director deu-nos um sermão logo de seguida. Já iam tarde. Eu e o Quim olhávamos um para o outro e cúmplices, afagávamos uns autocolantes que, por debaixo da camisa tínhamos colado à pele… Agora, já sem autocolantes e desbotado de algumas cores, olho para o mau filho e para os filhos dos outros, vejo a sua reacção quando tento explicar tudo o que senti aos 10 anos no 25 de Abril. Fico acabrunhado quando reparo que estou a falar de um assunto “fora de moda”. Fico ainda mais acabrunhado quando vejo que será impossível tornar a acontecer. Bem hajam. 25 DE ABRIL – SEMPRE!

Comments:
Sabes o que me dana? Quando falo do 25 de abril, de liberdade, algumas pessoas dizem: tu tinhas meses, tu sabes lá...
Eu nunca morri mas sei que a morte nao deve ser grande coisa.
Eu nunca parti uma perna, um braço, mas acredito que deva doer imenso.
Eu nunca roubei mas sei que nao é correcto.
Eu, felizmente, nao sei o que é viver amordaçado, vendado, mas sei que nao deve ser boa coisa.
É claro que este comentario é feito por pessoas que me querem convencer que havia liberdade antes do 25 de abril.
Acredito que houvesse mas nao era para todas as pessoas!
 
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