Fight Club
6 de Abril de 2005
Nessa noite chovia.
Era uma daquelas noites em que o céu, próximo de nós, descarregava incessantemente todo o seu peso sobre as luzes da cidade e as pessoas corriam abrigando-se de arcada em arcada, por entre os automóveis imóveis no engarrafamento.
Tínhamos combinado encontrar-nos à porta do cinema às 18:45h para, antes do filme, comermos qualquer coisa e eu aguardava já há algum tempo. No meio de toda aquela lufa-lufa de gente e carros, vi-te a chegar. Vinhas chateada.
Tinhas molhado a saia nova ao atravessar a estrada (um daqueles parvos que não olham a quem passa e conseguem acertar em todas as poças de água que encontram) e abanavas incessantemente as suas pregas tentando minimizar os estragos.
Sorri-te e tu sorriste-me.
Fomos a um café ali perto, pedimos chá e ficamos ali sentados a olhar pela vidraça distraidamente sem nada de especial para dizer. Olhei-te e senti aquela paz morna que se sente quando, num dia de chuva nos deixamos ficar na cama a sornar ou como quando nos deixamos embalar por um brandy tomado ao fim da noite frente à lareira, e recostei-me na cadeira.
Na mesa ao lado, um casal discutia enquanto o seu filho, alheado, construía complexas imaginações com algumas pedritas de Legos, que não, que teria que ir ao jogo pois já tinha combinado, e eu, que quando quero ir a algum lado estás sempre ocupado e tenho que ir sozinha, vais sozinha porque queres, senão telefonavas à tua irmã, é sempre a mesma coisa, lembras-te, já no ano passado por esta altura… e os Legos caíram.
Viramo-nos ambos para a mesa ao lado, subitamente atraídos pelo ruído. O miúdo chorava já e os pais ralhavam com ele violentamente pois não te sabes comportar em lado nenhum, estou farto de te dizer que os Legos não são para trazer, já não sei o que fazer mais, este puto não vai dar nada.
Ajudei o miúdo a apanhar os Legos e este olhou-me com aquele meio sorriso autista que me deixou amargo. Olhei uma vez mais para o casal que já não discutia e sorria complacentemente.
Disseste-me que talvez tivesses que ir trabalhar para fora durante uns meses e eu perguntei-te para onde. Talvez para Paris, disseste.
Fiquei num silêncio estúpido, acabrunhado.
É só por uns três meses… nem vamos sentir.
Pedi a conta ao empregado do café e, quando saíamos, o miúdo veio ter connosco e ofereceu-nos uma pedra de Lego a cada um, uma vermelha e uma amarela. Tu ficaste com a amarela.
Cá fora, debaixo da arcada e com a chuva a cair sobre a multidão, sobre os carros agora furiosos, sobre os pedintes e os polícias, sobre os cães vadios que passavam os caminhos de todos os dias, olhámo-nos uma vez mais e beijámo-nos.
Acho que já não me apetece ir ao cinema, disseste-me.
Amo-te, disse-te.
Afastamo-nos um do outro sem nada mais a dizer, sem promessas, sem contratos a rasgar, sentindo cada um de nós que o mundo iria continuar a girar lentamente sobre um eixo imaginário, a prender-nos incessantemente pela gravidade, a fluir inexoravelmente por entre os dedos e que a chuva não iria parar tão cedo.
Passados estes anos, tenho ainda a pedra vermelha na gaveta e, de vez em quando pego-lhe e tento imaginar como teria sido se chegássemos a ter ido ver o Fight Club.
Fomos a um café ali perto, pedimos chá e ficamos ali sentados a olhar pela vidraça distraidamente sem nada de especial para dizer. Olhei-te e senti aquela paz morna que se sente quando, num dia de chuva nos deixamos ficar na cama a sornar ou como quando nos deixamos embalar por um brandy tomado ao fim da noite frente à lareira, e recostei-me na cadeira.
Na mesa ao lado, um casal discutia enquanto o seu filho, alheado, construía complexas imaginações com algumas pedritas de Legos, que não, que teria que ir ao jogo pois já tinha combinado, e eu, que quando quero ir a algum lado estás sempre ocupado e tenho que ir sozinha, vais sozinha porque queres, senão telefonavas à tua irmã, é sempre a mesma coisa, lembras-te, já no ano passado por esta altura… e os Legos caíram.
Viramo-nos ambos para a mesa ao lado, subitamente atraídos pelo ruído. O miúdo chorava já e os pais ralhavam com ele violentamente pois não te sabes comportar em lado nenhum, estou farto de te dizer que os Legos não são para trazer, já não sei o que fazer mais, este puto não vai dar nada.
Ajudei o miúdo a apanhar os Legos e este olhou-me com aquele meio sorriso autista que me deixou amargo. Olhei uma vez mais para o casal que já não discutia e sorria complacentemente.
Disseste-me que talvez tivesses que ir trabalhar para fora durante uns meses e eu perguntei-te para onde. Talvez para Paris, disseste.
Fiquei num silêncio estúpido, acabrunhado.
É só por uns três meses… nem vamos sentir.
Pedi a conta ao empregado do café e, quando saíamos, o miúdo veio ter connosco e ofereceu-nos uma pedra de Lego a cada um, uma vermelha e uma amarela. Tu ficaste com a amarela.
Cá fora, debaixo da arcada e com a chuva a cair sobre a multidão, sobre os carros agora furiosos, sobre os pedintes e os polícias, sobre os cães vadios que passavam os caminhos de todos os dias, olhámo-nos uma vez mais e beijámo-nos.
Acho que já não me apetece ir ao cinema, disseste-me.
Amo-te, disse-te.
Afastamo-nos um do outro sem nada mais a dizer, sem promessas, sem contratos a rasgar, sentindo cada um de nós que o mundo iria continuar a girar lentamente sobre um eixo imaginário, a prender-nos incessantemente pela gravidade, a fluir inexoravelmente por entre os dedos e que a chuva não iria parar tão cedo.
Passados estes anos, tenho ainda a pedra vermelha na gaveta e, de vez em quando pego-lhe e tento imaginar como teria sido se chegássemos a ter ido ver o Fight Club.
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deus...como é um desafio encontrá-lo.....dá trabalho....mas pronto...já sei...vale a pena...uff.
beijo doce.
beijo doce.
o que ficou por dizer, o que ficou por fazer, o que ficou por ser...
Se tivesse dito sim em vez de nao, se tivesse dito nao em vez de sim, se fosse para a direita em vez da esquerda...
Como seria? Como estaria? Como sentiria?
Seria Eu agora?
Se tivesse dito sim em vez de nao, se tivesse dito nao em vez de sim, se fosse para a direita em vez da esquerda...
Como seria? Como estaria? Como sentiria?
Seria Eu agora?
isabel o mundo parece grande.
mas nós sabemos que não o é.
mia: é por isso que não nos devemos deitar ou viajar ou viver ou estar zangado com alguém... podemos ter que morrer a qualquer instante.
a principal regra do bushido...
beijos a ambaisssss. [sotaque brasileiro, não sei porquê]
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mas nós sabemos que não o é.
mia: é por isso que não nos devemos deitar ou viajar ou viver ou estar zangado com alguém... podemos ter que morrer a qualquer instante.
a principal regra do bushido...
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