!
.
O [em nome próprio ] a partir de agora mora aqui.
Obrigado a todos.
À Hora da Minha Morte
6 de Junho de 2005
Olhava para o meu avô procurando amigos no obituário do jornal.
Página a página, cigarro fumegante na boca torcida pela trombose, ia contando colegas de escola, companheiros de brincadeira e de trabalho, imbecis que lhe fizeram a vida negra, mulheres que desejou e, de quando em quando, soltando um baixinho “Olha, olha, quem morreu… tão novo…” e eu olhava para a fotografia de um velho, olhava para ele de seguida e pensava que não, que não era assim tão novo.
Nessa altura, tinha mais para viver que o vivido – o saldo era ainda francamente positivo e a coluna do “haver” era muito mais preenchida que a do “deve”…
Entretanto, começaram a morrer pessoas que eu próprio conhecia.
A primeira morte de que me lembro foi a uma menina minha vizinha (já não recordo o seu nome, recordo um balaústre onde uma ocasião fiquei com a cabeça presa – truques da memória) que foi a enterrar teria eu aí uns 6 ou 7 anos de idade.
Não me recordo dos pormenores, exceptuando este: era fria, amarga e cheirava a qualquer coisa que poderia ter sido viva mas agora estava morta. Constatei tudo isto com um beijo no seu cadáver que me fizeram dar.
A segunda morte que recordo foi a do meu primo no Ultramar – o Rangel de quem só lembro a fotografia – e que não esqueci nunca mais, apesar de não me lembrar dele, de crer nem sequer tê-lo conhecido. Foi, apesar disso, o meu primeiro contacto pessoal com a Guerra.
Não me recordo do funeral do meu avô, melhor, de nenhum dos meus avós.
Foram pessoas muito queridas para mim.
O último a morrer, andava eu na tropa e a única coisa que recordo é o meu Primeiro, o Sargento Gomes, a dizer “Teixeira: deixaste alguém doente em casa?”
“Não, meu Primeiro” , respondi. Ele andou em volta de mim – tinha mandado sentar-me, coisa rara no mundo da tropa. “Bom… passa-se que…” , hesitou e passou-me um toque de ordem para a mão. “Olha pá: o teu avô morreu. Vai a casa que tens 3 dias”.
Do que me lembro a seguir é de voltar a entrar no quartel.
Morreu mais gente, tenho visto muita morte: velhos que morrem, novos que morrem, amigos de infância a morrer cada vez mais cedo… e, engraçado, de cada vez que a pessoa é importante para mim, não me lembro de nada.
Mais: praticamente esqueço a pessoa.
Estranha esta memória selectiva.
Estranha esta negação da morte: quase que penso que, em vez de morrer, a pessoa nunca existiu.
“Quando eu morrer” é uma frase que digo com naturalidade, sem problemas de maior a não ser a leve tristeza, a leve frustração de deixar de existir.
A não-existência.
O não-ser.
O “para quê tudo isto?” que se forma involuntariamente nos lábios.
A visão de Mário Sá Carneiro acerca de “morrer enquanto somos belos”.
Mas também sei que, não tarda, hei-de estar atento ao obituário do jornal murmurando “Olha quem morreu…” e desejando sempre mais um dia.
E, na inevitabilidade da coisa, só desejo lucidez na velhice e leveza na morte.
Só há um tipo de morte que me assusta: a morte solitária.
Gostava de ter companhia na hora da partida.
Gostava de morrer de olhos abertos a ver os que amo.
Gostava de morrer de mão dada com os meus.
Espero conseguir.
O Pôr do Sol
7 de Abril de 2005
Estranho… pensou. E os seus olhos emoldurados pelas rugas de tanto Sol coar piscaram e olharam uma outra vez o horizonte.
Hum… estranho, muito estranho. Subiu as escadas de caracol para o topo do farol tentando obter assim uma melhor perspectiva mas, chegado lá, a cena não se tinha modificado. Acendeu o cachimbo e sentou-se no banco de madeira que habitualmente usava para trepar às enormes lentes do farol quando as limpava e deixou-se ali ficar por uns instantes, pensativo.
Enquanto a tarde descia pelo céu, relembrou algumas horas da sua vida: quando o Chico lhe roubou a fisga e partiu os vidros da padaria e quem apanhou uma sova de cinto foi ele, a namorada, única que teve, de corpo e alma, com quem casou mais tarde na mesma igreja onde a esperava todos os domingos, o filho que lhes nasceu e que agora é Doutor na América, os camaradas do barco em que passou a maior parte da sua vida até o acidente o mandar para o farol, a tropa passada na Guiné e os seus mortos, brancos e pretos, o pôr do sol… que hoje não era igual.
Despertou da sonolência que o tinha embriagado e olhou uma vez mais o horizonte.
Estranho… pensou que talvez fosse o fim ou que os Russos andassem por ali ou que os Americanos andassem com mais experiências ou que a aguardente estivesse estragada. Desceu e caminhou pela areia que nunca mais acabava certificando-se assim da evidência que tanto estranhava.
Hoje não iria, pela primeira vez em décadas, acender o farol. Calmo, sentou-se. Tornou a encher o cachimbo e, enquanto ajeitava o tabaco olhou uma vez mais o horizonte semicerrando os olhos.
Nada… Tinha em tempos ouvido histórias de monstros marinhos, de peixes que encantavam, sereias e afins, tinha durante a sua curta meninice – que cedo começou na faina – alimentado a sua imaginação com imagens de sangue suor e lágrimas, berros da proa à popa, gente que corria na coberta à procura de salvação de um tenebroso perigo qualquer enquanto vagas fustigavam as redes pendentes que baloiçavam a um ritmo louco enquanto o barco subia e descia, voando arritmias que voavam estômagos borda fora.
Tinha provado o sal e o Sol e as refeições a bordo curtidas em copos de vinho e bagaço para aquecer, a camaradagem que não se esquece, a mão que salva no instante da queda, os olhos já velhos que o afastavam rudemente da borda “tem calma rapaz, tens tempo para isto” e o mandavam para a camarata dormir um pouco, o cabaz que lhe era dado no fim da noite e que orgulhosamente levava à mãe.
Mas isto, isto era diferente.
Desceu as escadas de caracol e sentou-se à mesa abrindo o jornal na página das palavras cruzadas. Era um hábito solitário que o ajudava a pensar nas longas horas de solidão. Já sabia quase todas de cor e cada vez mais os Jornais repetiam as fórmulas. Chegou ele próprio a desenhar alguns diagramas mas perdeu a paciência e voltou a usar o jornal para se entreter. Chateou-se rapidamente e, após um último olhar ao horizonte que continuava a desafiar a sua inteligência, resolveu deitar-se. Amanhã tudo teria passado, estaria de certeza a sonhar.
Dirigindo-se ao pequeno catre onde dormia (todas as noites sentia a falta do balançar que o adormecia) atirou o jornal para cima da mesa com nódoa de azeite e vinho.
Ficou virada para cima a 1ª página do jornal que, nesse dia, dizia em letra de forma
“Mar: Portugal perde a Zona Económica Exclusiva.”
Ask
7 de Abril de 2005
Esta compulsão da escrita... da partilha...
Esta compulsão da procura.
A língua inglesa tem uma boa palavra, simples, eficaz, curta e objectiva para definir o sentido desta demanda: ASK.
Apetece-me dizer ASK SEMPRE.
Não é a Verdade, não é a demanda do Sentido da Vida - para esse tenho o dos Monty Python -, é mais um acumular de tensões que jorram pela ponta de uma caneta.
Deslize Freudiano? Concerteza.
Não seja a escrita um prazer e sofrimento como todo o amor que assim se chame...
Dizem coisas acerca do acto criativo, complexidades a que sou alheio.
Não sou escritor, sou antes um debitador de caracteres à velocidade permitida por dois dedos indicadores e um médio, por norma desatento e a quem demasiadas vezes a realidade parece um sonho estapafúrdio de contrasensos e desentendimentos.
A realidade não é harmoniosa, nem eu quero que o seja.
Não pode ser resumida a uma linha, acreditemos no que acreditarmos.
Não pode ser escrita.
Não interessa.
ASK. Fight Club
6 de Abril de 2005
Nessa noite chovia.
Era uma daquelas noites em que o céu, próximo de nós, descarregava incessantemente todo o seu peso sobre as luzes da cidade e as pessoas corriam abrigando-se de arcada em arcada, por entre os automóveis imóveis no engarrafamento.
Tínhamos combinado encontrar-nos à porta do cinema às 18:45h para, antes do filme, comermos qualquer coisa e eu aguardava já há algum tempo. No meio de toda aquela lufa-lufa de gente e carros, vi-te a chegar. Vinhas chateada.
Tinhas molhado a saia nova ao atravessar a estrada (um daqueles parvos que não olham a quem passa e conseguem acertar em todas as poças de água que encontram) e abanavas incessantemente as suas pregas tentando minimizar os estragos.
Sorri-te e tu sorriste-me.
Fomos a um café ali perto, pedimos chá e ficamos ali sentados a olhar pela vidraça distraidamente sem nada de especial para dizer. Olhei-te e senti aquela paz morna que se sente quando, num dia de chuva nos deixamos ficar na cama a sornar ou como quando nos deixamos embalar por um brandy tomado ao fim da noite frente à lareira, e recostei-me na cadeira.
Na mesa ao lado, um casal discutia enquanto o seu filho, alheado, construía complexas imaginações com algumas pedritas de Legos, que não, que teria que ir ao jogo pois já tinha combinado, e eu, que quando quero ir a algum lado estás sempre ocupado e tenho que ir sozinha, vais sozinha porque queres, senão telefonavas à tua irmã, é sempre a mesma coisa, lembras-te, já no ano passado por esta altura… e os Legos caíram.
Viramo-nos ambos para a mesa ao lado, subitamente atraídos pelo ruído. O miúdo chorava já e os pais ralhavam com ele violentamente pois não te sabes comportar em lado nenhum, estou farto de te dizer que os Legos não são para trazer, já não sei o que fazer mais, este puto não vai dar nada.
Ajudei o miúdo a apanhar os Legos e este olhou-me com aquele meio sorriso autista que me deixou amargo. Olhei uma vez mais para o casal que já não discutia e sorria complacentemente.
Disseste-me que talvez tivesses que ir trabalhar para fora durante uns meses e eu perguntei-te para onde. Talvez para Paris, disseste.
Fiquei num silêncio estúpido, acabrunhado.
É só por uns três meses… nem vamos sentir.
Pedi a conta ao empregado do café e, quando saíamos, o miúdo veio ter connosco e ofereceu-nos uma pedra de Lego a cada um, uma vermelha e uma amarela. Tu ficaste com a amarela.
Cá fora, debaixo da arcada e com a chuva a cair sobre a multidão, sobre os carros agora furiosos, sobre os pedintes e os polícias, sobre os cães vadios que passavam os caminhos de todos os dias, olhámo-nos uma vez mais e beijámo-nos.
Acho que já não me apetece ir ao cinema, disseste-me.
Amo-te, disse-te.
Afastamo-nos um do outro sem nada mais a dizer, sem promessas, sem contratos a rasgar, sentindo cada um de nós que o mundo iria continuar a girar lentamente sobre um eixo imaginário, a prender-nos incessantemente pela gravidade, a fluir inexoravelmente por entre os dedos e que a chuva não iria parar tão cedo.
Passados estes anos, tenho ainda a pedra vermelha na gaveta e, de vez em quando pego-lhe e tento imaginar como teria sido se chegássemos a ter ido ver o Fight Club.
Fomos a um café ali perto, pedimos chá e ficamos ali sentados a olhar pela vidraça distraidamente sem nada de especial para dizer. Olhei-te e senti aquela paz morna que se sente quando, num dia de chuva nos deixamos ficar na cama a sornar ou como quando nos deixamos embalar por um brandy tomado ao fim da noite frente à lareira, e recostei-me na cadeira.
Na mesa ao lado, um casal discutia enquanto o seu filho, alheado, construía complexas imaginações com algumas pedritas de Legos, que não, que teria que ir ao jogo pois já tinha combinado, e eu, que quando quero ir a algum lado estás sempre ocupado e tenho que ir sozinha, vais sozinha porque queres, senão telefonavas à tua irmã, é sempre a mesma coisa, lembras-te, já no ano passado por esta altura… e os Legos caíram.
Viramo-nos ambos para a mesa ao lado, subitamente atraídos pelo ruído. O miúdo chorava já e os pais ralhavam com ele violentamente pois não te sabes comportar em lado nenhum, estou farto de te dizer que os Legos não são para trazer, já não sei o que fazer mais, este puto não vai dar nada.
Ajudei o miúdo a apanhar os Legos e este olhou-me com aquele meio sorriso autista que me deixou amargo. Olhei uma vez mais para o casal que já não discutia e sorria complacentemente.
Disseste-me que talvez tivesses que ir trabalhar para fora durante uns meses e eu perguntei-te para onde. Talvez para Paris, disseste.
Fiquei num silêncio estúpido, acabrunhado.
É só por uns três meses… nem vamos sentir.
Pedi a conta ao empregado do café e, quando saíamos, o miúdo veio ter connosco e ofereceu-nos uma pedra de Lego a cada um, uma vermelha e uma amarela. Tu ficaste com a amarela.
Cá fora, debaixo da arcada e com a chuva a cair sobre a multidão, sobre os carros agora furiosos, sobre os pedintes e os polícias, sobre os cães vadios que passavam os caminhos de todos os dias, olhámo-nos uma vez mais e beijámo-nos.
Acho que já não me apetece ir ao cinema, disseste-me.
Amo-te, disse-te.
Afastamo-nos um do outro sem nada mais a dizer, sem promessas, sem contratos a rasgar, sentindo cada um de nós que o mundo iria continuar a girar lentamente sobre um eixo imaginário, a prender-nos incessantemente pela gravidade, a fluir inexoravelmente por entre os dedos e que a chuva não iria parar tão cedo.
Passados estes anos, tenho ainda a pedra vermelha na gaveta e, de vez em quando pego-lhe e tento imaginar como teria sido se chegássemos a ter ido ver o Fight Club. Senhor P.
13 de Fevereiro de 2005
Este fim-de-semana morreu gente.
Foi um fim-de-semana prolongado e a morte aproveitou para fazer, de uma vez, uma varredela.
Foram, de uma assentada, personalidades com que cresci, gente que, de uma forma ou outra, por afinidade ou contradição, moldaram muito do que sou hoje.
Vasco Gonçalves, homem de Abril, militar que acreditou na política, na mudança social, no caminho para o Futuro… de uma ou outra forma, não vou criticá-lo aqui.
Foi, antes de mais, um Homem que acreditou ser possível, traçou o caminho e tentou percorrê-lo.
Álvaro Cunhal, o último bastião da Revolução Socialista.
Sobre este Homem é complexo falar.
Anti-fascista lutador, 12 anos de prisão – oito dos quais em isolamento –, uma vida dedicada à Causa.
Sem lucro próprio a não ser o de ver a História fazer-se, também, pelas suas mãos.
Homem político, escritor, pintor, entre muitas outras complexidades decerto desconhecidas pois nunca se fez conhecer.
Eugénio de Andrade, o Homem que cantou as Mães e as vísceras, o amor e os fluidos, a morte e a carne sempre com o mesmo timbre de quem vê ao longe.
Escreveu, antes de mais, o contacto com o maravilhoso que é a vida na sua mais bruta essência.
Todos eles morreram, todos eles vão ser, de certeza, saudade no coração de muitos.
Mas houve mais mortes.
O Sr. P, meu vizinho, morreu.
O Sr. P era homem na casa dos 60, andava pela vida com vagar – ultimamente empurrando o carrinho de bebe do seu neto rua acima, rua abaixo –, nem sequer recordo de alguma vez tê-lo ouvido falar.
Calculo que não tenha nunca saído dos limites da rua.
Era apagado, estranhamente apagado e só passados para aí 10 anos de viver onde vivo é que comecei a cumprimentá-lo com um “bom dia” a que ele me respondia, às vezes, com um ligeiro acenar de cabeça.
O que sei do Sr. P? Mais nada.
Via-o a levar o neto, a dar comida aos cães vadios, sentado à sombra na rua com o seu banquinho… nada mais.
Creio que, algures cá dentro, o desprezava.
Pois bem: sexta, dia 10, o Sr. P foi ao bar da Fanfarra (a minha fonte de arrelias e desesperos), calculo que falar com alguém ou simplesmente tomar um café (acho que também nunca o vi a tomar café), saiu e dirigiu-se a casa.
Lá chegado, enforcou-se.
Não sei mais pormenores.
O Sr. P, durante algum tempo há-de viver ainda nas nossas consciências.
Na dele, não.
A dele deixou de existir.
Porquê um enforcamento?
Porquê o suicídio?
Não sei.
Acho que nunca vou saber, nem sei se quero.
Fico assim, a pensar quem seria realmente o Sr. P.
Acho que, tarde demais e sem saber exactamente porquê, começo a mudar a minha opinião sobre ele.
Afinal, o homem pensava, sentia, vivia… já não.
Não tentou o suicídio, executou-o.
Não se salvou, não foi salvo.
Eugénio de Andrade, o Homem que cantou as Mães e as vísceras, o amor e os fluidos, a morte e a carne sempre com o mesmo timbre de quem vê ao longe.
Escreveu, antes de mais, o contacto com o maravilhoso que é a vida na sua mais bruta essência.
Todos eles morreram, todos eles vão ser, de certeza, saudade no coração de muitos.
Mas houve mais mortes.
O Sr. P, meu vizinho, morreu.
O Sr. P era homem na casa dos 60, andava pela vida com vagar – ultimamente empurrando o carrinho de bebe do seu neto rua acima, rua abaixo –, nem sequer recordo de alguma vez tê-lo ouvido falar.
Calculo que não tenha nunca saído dos limites da rua.
Era apagado, estranhamente apagado e só passados para aí 10 anos de viver onde vivo é que comecei a cumprimentá-lo com um “bom dia” a que ele me respondia, às vezes, com um ligeiro acenar de cabeça.
O que sei do Sr. P? Mais nada.
Via-o a levar o neto, a dar comida aos cães vadios, sentado à sombra na rua com o seu banquinho… nada mais.
Creio que, algures cá dentro, o desprezava.
Pois bem: sexta, dia 10, o Sr. P foi ao bar da Fanfarra (a minha fonte de arrelias e desesperos), calculo que falar com alguém ou simplesmente tomar um café (acho que também nunca o vi a tomar café), saiu e dirigiu-se a casa.
Lá chegado, enforcou-se.
Não sei mais pormenores.
O Sr. P, durante algum tempo há-de viver ainda nas nossas consciências.
Na dele, não.
A dele deixou de existir.
Porquê um enforcamento?
Porquê o suicídio?
Não sei.
Acho que nunca vou saber, nem sei se quero.
Fico assim, a pensar quem seria realmente o Sr. P.
Acho que, tarde demais e sem saber exactamente porquê, começo a mudar a minha opinião sobre ele.
Afinal, o homem pensava, sentia, vivia… já não.
Não tentou o suicídio, executou-o.
Não se salvou, não foi salvo. Barfly
28 de Novembro de 2004
Balcão sujo
Dedos brincam nas marcas circulares
Dos copos deixados vazios
Pensamentos em pequeníssimas garrafas de cristal
Tomam forma
Ardem por dentro e não deixam respirar
As palavras surgem desbotadas
A visão dança
Alegre companhia a minha
Neste local deslocado
Onde a vergonha é paga à saída
E a memória não existe
De copo em copo vejo a minha história ser apagada
Até restar somente eu
E as moscas que me bebem os restos
Lá fora a noite vai estar apagada
E os cães vão rosnar à minha passagem
Pelo caminho há-de haver alguma luz
Algum letreiro de néon que me guie
Bar adentro mar adentro
Num caminho sem recuo
Num caminho sempre igual
É o tilintar das moedas no balcão que me acorda
Deste estupor desvairado
Um amigo
Mais um copo
Enquanto não fecha.
As palavras surgem desbotadas
A visão dança
Alegre companhia a minha
Neste local deslocado
Onde a vergonha é paga à saída
E a memória não existe
De copo em copo vejo a minha história ser apagada
Até restar somente eu
E as moscas que me bebem os restos
Lá fora a noite vai estar apagada
E os cães vão rosnar à minha passagem
Pelo caminho há-de haver alguma luz
Algum letreiro de néon que me guie
Bar adentro mar adentro
Num caminho sem recuo
Num caminho sempre igual
É o tilintar das moedas no balcão que me acorda
Deste estupor desvairado
Um amigo
Mais um copo
Enquanto não fecha.Debaixo de Um Fogo a Roçar o Céu
11 de Setembro de 2004
Debaixo de um fogo a roçar o céu senti a súbita saudade de cheiros de menino quando, sentado no banco de madeira, ouvia um fado, sempre o mesmo, e me deixava assim embalar pela voz entrecortada por ruídos de tachos num frenesi demorado, antecipando o jantar.
Chorei e pedi aos Deuses que me dessem fortuna para conseguir lá chegar uma outra vez.
O barulho das vozes que me rodeavam era aquele que nos assalta no fim de um pesadelo, naquela altura mesmo antes de acordar, e chateava.
Debaixo daquele fogo deixei a minha mente e a minha alma rodopiarem sinistramente em volta de mim até me conseguir encontrar no meio de um suicídio público, daqueles em que se poderia bater palmas ao mortificado actor de tão trágica comédia e, tentando apalpar algum conforto senti então as pontas dos dedos tacteantes encontrarem carne como a minha e virei o meu corpo, sorrindo, preparando o beijo que me iria levar de volta.
Reparei então que a cara que tinha em frente a mim não era a que esperara encontrar.
Esta tinha um esgar que outrora poderia ter sido um sorriso mas que não o era já e olhava-me fixamente com os olhos emoldurados pelo vermelho velho do sangue misturado com o pó.
Tentei ignorar o ruído que me rodeava e voltar àquela cozinha da minha infância, desesperadamente tentei levantar-me e sair correndo mas não consegui: uma barra toldava-me os movimentos.
Era uma barra metafísica, uma barra que não se sujeitava aos baixos desígnios da Natureza e que nunca mais na minha vida se iria separar de mim.
Só muito mais tarde soube que o carro armadilhado tinha morto mais 29 pessoas além de mim.
Agora sorrio toda a minha tristeza e canto só para mim o fado que tão cedo aprendi.
Eu quero amar
amar perdidamente
Amar, só por amar é que há lei
Mais este, aquele outro e toda a gente
Amar
amar e não amar ninguém
Longa é a espera neste vazio que confronto com indiferença e a morte já não é um estorvo pois aprendi a esperar por companhia.
Alguém que me faça a vontade e me lembre como eu era pois a memória já me escapa.
Cedo aprendi que não podemos esperar que exista paz no mundo dos vivos mas, neste que habito agora, a paz está também ausente e a angústia de ver vezes sem conta corpos trucidados pela estupidez é constante.
Se tornar a morrer, quero morrer feliz.
Debaixo daquele fogo deixei a minha mente e a minha alma rodopiarem sinistramente em volta de mim até me conseguir encontrar no meio de um suicídio público, daqueles em que se poderia bater palmas ao mortificado actor de tão trágica comédia e, tentando apalpar algum conforto senti então as pontas dos dedos tacteantes encontrarem carne como a minha e virei o meu corpo, sorrindo, preparando o beijo que me iria levar de volta.
Reparei então que a cara que tinha em frente a mim não era a que esperara encontrar.
Esta tinha um esgar que outrora poderia ter sido um sorriso mas que não o era já e olhava-me fixamente com os olhos emoldurados pelo vermelho velho do sangue misturado com o pó.
Tentei ignorar o ruído que me rodeava e voltar àquela cozinha da minha infância, desesperadamente tentei levantar-me e sair correndo mas não consegui: uma barra toldava-me os movimentos.
Era uma barra metafísica, uma barra que não se sujeitava aos baixos desígnios da Natureza e que nunca mais na minha vida se iria separar de mim.
Só muito mais tarde soube que o carro armadilhado tinha morto mais 29 pessoas além de mim.
Agora sorrio toda a minha tristeza e canto só para mim o fado que tão cedo aprendi.
Eu quero amar
amar perdidamente
Amar, só por amar é que há lei
Mais este, aquele outro e toda a gente
Amar
amar e não amar ninguém
Longa é a espera neste vazio que confronto com indiferença e a morte já não é um estorvo pois aprendi a esperar por companhia.
Alguém que me faça a vontade e me lembre como eu era pois a memória já me escapa.
Cedo aprendi que não podemos esperar que exista paz no mundo dos vivos mas, neste que habito agora, a paz está também ausente e a angústia de ver vezes sem conta corpos trucidados pela estupidez é constante.
Se tornar a morrer, quero morrer feliz.O Mundo a Cores
25 de Abril de 2004
A páginas tantas o Senhor Director veio à nossa sala da 4ª Classe no Externato S. João Bosco, em Matosinhos, segredou à Senhora Professora que, atarantada nos levou para a Sala Principal (aquela onde aos Sábados íamos ver slides sobre a vida de S. João Bosco e dos missionários) e aí nos fez sentar.
Consternada, fez o anúncio do dia: “Meninos, hoje sucedeu uma coisa e vocês vão ter que fazer tudo o que eu disser” – o Senhor Director andava para um lado e para o outro, nervoso e esfregando as mãos – a Senhora Professora continuou: “Vou ligar agora aos vossos paizinhos para vos virem buscar… vocês não saem daqui e prometem que não abrem a porta a ninguém, está bem?”
Assentimos em uníssono enquanto eu, preocupado por não ter telefone em casa, não sabia exactamente o que fazer.
Tudo se passou rapidamente a partir daí – os pais começaram a chover em catadupa e ai meu Deus agora o que vai ser, desculpe Senhora Professora mas se calhar o meu menino amanhã não vem… é capaz de ser perigoso – e eu à espera.
Ganhei coragem – juntei-me ao Farinha que já tinha para aí uns 12 anos – e fomos os dois perguntar o que se passava.
A Senhora Professora fez um sinal com o indicador junto aos lábios “Chiu” e segredou: “Houve uma coisa… os tropas prenderam o Senhor Presidente do Conselho…” e logo jovial: “Mas não se preocupem, Deus Nosso Senhor há-de nos proteger!”
Entretanto chegou o meu Pai, vinha a correr desde a tipografia.
Aparentemente tinha sabido da notícia pela rádio.
Deu-me um beijo e fomos de mão dada, à presa, para casa.
“Pai, o que se passa?”
O meu Pai, sempre a nadar disse, com alguma excitação: “Houve uma Revolução.”
Chegados a casa ligamos a televisão.
Barbudos, cabelos grandes, boina mal posta, abraçavam-se à população nas ruas – as chaimites, meu Deus, as chaimites eram a menina dos meus olhos – haviam cravos e as pessoas riam.
Nunca tinha visto algo assim.
Caíam gavetas, secretárias e papéis de janelas e o meu Pai dizia-me “Vês, ali era a PIDE…”.
“O que é a PIDE?”. O meu Pai, já um pouco cansado explicava: “É a Polícia que andava os antifascistas para o Tarrafal, até os torturava… eram como cães…” , e eu pensava como nunca tinha sabido dessas coisas.
“Ó Pai, mas o que andam os soldados a fazer na rua? Porque é que eles têm cravos nas armas? Porque é que há festa? Porque…”
“É a Liberdade! É a Liberdade, filho.”
Fiquei sem perceber.
Então os meus Pais sentaram-se comigo e com o meu irmão e explicaram:
“Liberdade é poderes falar como quiseres, saíres à rua e dizeres a tua opinião, poderes ser quem quiseres. Até ontem, não podias fazer isso senão ias preso. Há gente que, por ser contra o Governo, ia para ao Tarrafal e era torturada, mesmo morta…”
Fiz contas rápidas.
Gostava dessa palavra: Liberdade.
Fiquei nesse momento a saber que não a tinha, que ia passar a tê-la.
Gostei da sensação.
Fiquei a saber palavra novas: Fascismo, Comunismo, Socialismo, MFA – esta que tanto repeti, quase até à exaustão – coleccionei os autocolantes de quase todos os Partidos, e eram tantos!
Fiquei também a saber que não iria para o Ultramar que já me tinha levado dois primos e isso, só isso, chegou para eu acolher efusivamente as notícias.
A Senhora Professora acolheu-nos no dia seguinte com um ar estranho.
Tudo bem, estávamos em Democracia - outra palavra nova – mas tínhamos que ter cuidado com algumas coisas:
Não renegar a Deus, ter respeito ao Pai e à Mãe, e sobretudo, muito cuidado com os Socialistas e com os Comunistas pois esses eram perigosos.
Deu-nos uma receita prática: Todos os partidos que tivessem a cor vermelha eram comunistas e eram perigosos – até matavam os velhinhos com uma injecção atrás da orelha e roubavam os filhos aos pais – por isso, não queria que ostentássemos autocolantes, cartazes, fosse o que fosse dessa cor.
O Senhor Director deu-nos um sermão logo de seguida.
Já iam tarde.
Eu e o Quim olhávamos um para o outro e cúmplices, afagávamos uns autocolantes que, por debaixo da camisa tínhamos colado à pele…
Agora, já sem autocolantes e desbotado de algumas cores, olho para o mau filho e para os filhos dos outros, vejo a sua reacção quando tento explicar tudo o que senti aos 10 anos no 25 de Abril.
Fico acabrunhado quando reparo que estou a falar de um assunto “fora de moda”.
Fico ainda mais acabrunhado quando vejo que será impossível tornar a acontecer.
Bem hajam.
25 DE ABRIL – SEMPRE!
Tudo se passou rapidamente a partir daí – os pais começaram a chover em catadupa e ai meu Deus agora o que vai ser, desculpe Senhora Professora mas se calhar o meu menino amanhã não vem… é capaz de ser perigoso – e eu à espera.
Ganhei coragem – juntei-me ao Farinha que já tinha para aí uns 12 anos – e fomos os dois perguntar o que se passava.
A Senhora Professora fez um sinal com o indicador junto aos lábios “Chiu” e segredou: “Houve uma coisa… os tropas prenderam o Senhor Presidente do Conselho…” e logo jovial: “Mas não se preocupem, Deus Nosso Senhor há-de nos proteger!”
Entretanto chegou o meu Pai, vinha a correr desde a tipografia.
Aparentemente tinha sabido da notícia pela rádio.
Deu-me um beijo e fomos de mão dada, à presa, para casa.
“Pai, o que se passa?”
O meu Pai, sempre a nadar disse, com alguma excitação: “Houve uma Revolução.”
Chegados a casa ligamos a televisão.
Barbudos, cabelos grandes, boina mal posta, abraçavam-se à população nas ruas – as chaimites, meu Deus, as chaimites eram a menina dos meus olhos – haviam cravos e as pessoas riam.
Nunca tinha visto algo assim.
Caíam gavetas, secretárias e papéis de janelas e o meu Pai dizia-me “Vês, ali era a PIDE…”.
“O que é a PIDE?”. O meu Pai, já um pouco cansado explicava: “É a Polícia que andava os antifascistas para o Tarrafal, até os torturava… eram como cães…” , e eu pensava como nunca tinha sabido dessas coisas.
“Ó Pai, mas o que andam os soldados a fazer na rua? Porque é que eles têm cravos nas armas? Porque é que há festa? Porque…”
“É a Liberdade! É a Liberdade, filho.”
Fiquei sem perceber.
Então os meus Pais sentaram-se comigo e com o meu irmão e explicaram:
“Liberdade é poderes falar como quiseres, saíres à rua e dizeres a tua opinião, poderes ser quem quiseres. Até ontem, não podias fazer isso senão ias preso. Há gente que, por ser contra o Governo, ia para ao Tarrafal e era torturada, mesmo morta…”
Fiz contas rápidas.
Gostava dessa palavra: Liberdade.
Fiquei nesse momento a saber que não a tinha, que ia passar a tê-la.
Gostei da sensação.
Fiquei a saber palavra novas: Fascismo, Comunismo, Socialismo, MFA – esta que tanto repeti, quase até à exaustão – coleccionei os autocolantes de quase todos os Partidos, e eram tantos!
Fiquei também a saber que não iria para o Ultramar que já me tinha levado dois primos e isso, só isso, chegou para eu acolher efusivamente as notícias.
A Senhora Professora acolheu-nos no dia seguinte com um ar estranho.
Tudo bem, estávamos em Democracia - outra palavra nova – mas tínhamos que ter cuidado com algumas coisas:
Não renegar a Deus, ter respeito ao Pai e à Mãe, e sobretudo, muito cuidado com os Socialistas e com os Comunistas pois esses eram perigosos.
Deu-nos uma receita prática: Todos os partidos que tivessem a cor vermelha eram comunistas e eram perigosos – até matavam os velhinhos com uma injecção atrás da orelha e roubavam os filhos aos pais – por isso, não queria que ostentássemos autocolantes, cartazes, fosse o que fosse dessa cor.
O Senhor Director deu-nos um sermão logo de seguida.
Já iam tarde.
Eu e o Quim olhávamos um para o outro e cúmplices, afagávamos uns autocolantes que, por debaixo da camisa tínhamos colado à pele…
Agora, já sem autocolantes e desbotado de algumas cores, olho para o mau filho e para os filhos dos outros, vejo a sua reacção quando tento explicar tudo o que senti aos 10 anos no 25 de Abril.
Fico acabrunhado quando reparo que estou a falar de um assunto “fora de moda”.
Fico ainda mais acabrunhado quando vejo que será impossível tornar a acontecer.
Bem hajam.
25 DE ABRIL – SEMPRE! O Mundo a Preto e Branco
24 de Abril de 2004
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
Era um mundo de certezas inabaláveis, onde tudo estava onde devia estar e nunca poderia ser de outra forma.
Era um mundo encerrado em si próprio, cego e autista ao tempo que passava lá fora.
Era um mundo repleto de alegrias estéreis como só a alegrias dos pobres podem ser, dos orgulhosamente pobres, orgulhosamente sós nesta ditosa Pátria minha amada, que ostentavam lenços brancos de pureza imaculada na Cova da Iria, acenando a despedida à Virgem como acenavam a despedida ao filho num cais cheio de tropa que embarcava – “Adeus, até ao meu regresso”, diziam – e deixavam para trás uma recém-casada e uma promessa de fidelidade extrema, para o que desse e que viesse, desde que viesse vivo, o pranto e a alma destroçada da mãe que, vendo o filho a partir via-se a ela própria partir-se em mil pedaços de sangue como aquele que tantas vezes encharcou a picada.
“Adeus, até ao meu regresso” e muitos regressaram vivos e inteiros.
Outros regressaram vivos.
Houve ainda outros que não regressaram.
E há ainda aqueles que, tendo regressado, deixaram lá ficar a alma.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
Era um mundo pequenino povoado por uma imensidão de fantasmas vestidos da mesma forma, falando da mesma maneira, fazendo todos a mesma coisa, todos os dias, todas as horas, ad eternum, amén.
“Espero que esta vos vá encontrar de saúde que eu por cá estou bem, graças a Deus” e a palavra saudade era a força que unia todas as mulheres de negro com o filho no Ultramar a combater os turras, o marido na França ou na Alemanha a fazer o que os outros não queriam, era o estímulo último para quem já não tinha forças para o choro como as raparigas prometidas do soldado que, entregues ao abandono, guardavam carta após carta, fotografia após fotografia, quantas para guardar eternamente com uma vela acesa “Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de ‘propriedades’, um beijo para os meus pais, os meus irmãos, para a Laurinda e para a Julinha – adeus, até ao meu regresso” poderia ter dito o Rangel de quem a única coisa que vimos regressar foi um caixão que não quiseram abrir.
Poderia ter dito o Rangel de G3 em riste numa picada qualquer de um sítio qualquer do qual nunca saberia o nome pois se soubesse diria um dia “Morri na picada do Kunene, estava Sol e a poeira entrava-me pela camisa, tapava-me os poros, não deixava respirar…” mas nem isso pôde o Rangel dizer.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
“Foram os turras…”
“E o que são turras?”
“São pretos maus que querem roubar a terra aos Portugueses.”
“Os pretos são maus?”
“Não. Nem todos. Alguns até são quase como nós, já quase sabem falar português e tudo…”
“E porque é que eles querem roubar as terras a Portugal?”
“Olha filho: tu sabes que os turras não são como nós… eles querem fazer as coisas à maneira deles. Mas África é nossa! Fomos nós que descobrimos, fomos nós que lhes ensinamos tudo, eles nem sequer se vestiam… vê lá! E agora querem roubar-nos Africa?”
“E foi por isso que mataram o Rangel?”
“O Rangel morreu a defender a Pátria. O Rangel é um herói.”
Encostei-me a ela.
Eu sabia que um dia também iria defender a Pátria, iria matar turras e ser herói.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
A sala de aula surda-muda inclinava as paredes para nós com todo o seu peso e, anti-séptica e protectora velava por nós a Santíssima Trindade logo ali, por cima do quadro negro: ao centro, o Senhor Presidente da República Portuguesa Almirante Américo Thomaz, logo seguido pela sua direita pelo Senhor Presidente do Conselho Professor Marcelo Caetano, grande homem que nos entrava porta dentro pela televisão nas célebres “Conversas em Família”, e à esquerda do Senhor Presidente, sempre atento mesmo lá do além, o Senhor Professor António de Oliveira Salazar.
Todos eles, obviamente capacitados pela solene presença do crucifixo logo acima da Presidência.
E a Pátria era grande.
Feita de homens bravos, porém humildes, a quem as riquezas terrenas não se comparavam à suprema honraria de construir a Pátria, esta estendia-se pelos quatro cantos do Mundo: Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Macau, Timor, Goa, Damão, Diu… éramos grandes e queríamos manter-nos assim.
Os descobridores do Mundo, todos Portugueses, não tinham feito todos os sacrifícios, não tinham tantos morrido às mãos dos selvagens que a custo cristianizamos das formas mais horrorosas como só gente profana sabia imaginar para agora entregarmos tudo.
Não.
As mães Portuguesas haviam ainda de gerar muita tropa de Infantaria, que era da mais pobrezinha mas ainda mais honrada… venham eles.
Fazíamos cópias em cadernos com duas linhas de onde não podíamos fugir, ou a letra, e essas linhas regulavam toda a nossa arte e todo o nosso ofício de copiar, escrever e reescrever vezes sem conta, com letra cada vez mais perfeita, tudo o que já tinha sido copiado, escrito e reescrito com letra mais que perfeita vezes sem conta por gerações que, vezes sem conta olharam para aquelas duas linhas e pensaram como hei-de eu sair destas duas linhas, o que farei fora delas, e que, no entanto, tiveram que ir para a França, Alemanha, Venezuela, Brasil, Estados Unidos, Canadá, a diáspora dos crentes da Nossa Senhora e das duas linhas em papel mata-borrão.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
E o branco espalhava-se anarquicamente sobre o negro do quadro à medida que o Farinha, rapaz para os 12 anos que andava ainda connosco na 4ª classe e que compensava o fraco aproveitamento na aritmética e na gramática com soberbas prestações físicas e lealdade comprovada na Mocidade portuguesa – francamente aplaudido por todos nós que, não tendo a farda, sonhávamos vir um dia a tê-la - dizia eu, à medida que o Farinha tentava resolver um problema aritmético por entre vergastadas e reguadas, genuflexões e outras torturas caridosas muito em voga na época – nada que não consolidasse o verdadeiro carácter heróico de uma Juventude que se queria forte de ideais e de convicção inabalável – todos nós íamos rindo à socapa.
A páginas tantas, estava eu já a olhar pela janela tentando compreender o que era o barulho lá fora, entra o Senhor Director que segreda qualquer coisa à Senhora Professora que, extática, fica ali, vira para o Senhor Director, vira para o Crucifixo quando, finalmente, resolve tirar-nos da sala de aula e levar-nos para o salão principal – aquele onde víamos os slides do S. João Bosco aos Sábados de manhã.
“Meninos, houve uma… coisa e eu quero que todos fiquem quietinhos que eu vou telefonar para os vossos paizinhos vos virem buscar.”
Fiquei preocupado: nós não tínhamos telefone.
Comecei a juntar dois mais dois, os pais que vinham buscar os filhos e, atrapalhados pegavam neles e “ai Meu Deus, só espero que não aconteça nada” ou “ó Senhora Professora, Deus Nosso Senhor nos ajude que se eles entram por aqui…” e cheguei a uma conclusão, a única conclusão possível:
Os turras tinham invadido Portugal Metropolitano.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
Era um mundo pequenino povoado por uma imensidão de fantasmas vestidos da mesma forma, falando da mesma maneira, fazendo todos a mesma coisa, todos os dias, todas as horas, ad eternum, amén.
“Espero que esta vos vá encontrar de saúde que eu por cá estou bem, graças a Deus” e a palavra saudade era a força que unia todas as mulheres de negro com o filho no Ultramar a combater os turras, o marido na França ou na Alemanha a fazer o que os outros não queriam, era o estímulo último para quem já não tinha forças para o choro como as raparigas prometidas do soldado que, entregues ao abandono, guardavam carta após carta, fotografia após fotografia, quantas para guardar eternamente com uma vela acesa “Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de ‘propriedades’, um beijo para os meus pais, os meus irmãos, para a Laurinda e para a Julinha – adeus, até ao meu regresso” poderia ter dito o Rangel de quem a única coisa que vimos regressar foi um caixão que não quiseram abrir.
Poderia ter dito o Rangel de G3 em riste numa picada qualquer de um sítio qualquer do qual nunca saberia o nome pois se soubesse diria um dia “Morri na picada do Kunene, estava Sol e a poeira entrava-me pela camisa, tapava-me os poros, não deixava respirar…” mas nem isso pôde o Rangel dizer.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
“Foram os turras…”
“E o que são turras?”
“São pretos maus que querem roubar a terra aos Portugueses.”
“Os pretos são maus?”
“Não. Nem todos. Alguns até são quase como nós, já quase sabem falar português e tudo…”
“E porque é que eles querem roubar as terras a Portugal?”
“Olha filho: tu sabes que os turras não são como nós… eles querem fazer as coisas à maneira deles. Mas África é nossa! Fomos nós que descobrimos, fomos nós que lhes ensinamos tudo, eles nem sequer se vestiam… vê lá! E agora querem roubar-nos Africa?”
“E foi por isso que mataram o Rangel?”
“O Rangel morreu a defender a Pátria. O Rangel é um herói.”
Encostei-me a ela.
Eu sabia que um dia também iria defender a Pátria, iria matar turras e ser herói.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
A sala de aula surda-muda inclinava as paredes para nós com todo o seu peso e, anti-séptica e protectora velava por nós a Santíssima Trindade logo ali, por cima do quadro negro: ao centro, o Senhor Presidente da República Portuguesa Almirante Américo Thomaz, logo seguido pela sua direita pelo Senhor Presidente do Conselho Professor Marcelo Caetano, grande homem que nos entrava porta dentro pela televisão nas célebres “Conversas em Família”, e à esquerda do Senhor Presidente, sempre atento mesmo lá do além, o Senhor Professor António de Oliveira Salazar.
Todos eles, obviamente capacitados pela solene presença do crucifixo logo acima da Presidência.
E a Pátria era grande.
Feita de homens bravos, porém humildes, a quem as riquezas terrenas não se comparavam à suprema honraria de construir a Pátria, esta estendia-se pelos quatro cantos do Mundo: Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, Macau, Timor, Goa, Damão, Diu… éramos grandes e queríamos manter-nos assim.
Os descobridores do Mundo, todos Portugueses, não tinham feito todos os sacrifícios, não tinham tantos morrido às mãos dos selvagens que a custo cristianizamos das formas mais horrorosas como só gente profana sabia imaginar para agora entregarmos tudo.
Não.
As mães Portuguesas haviam ainda de gerar muita tropa de Infantaria, que era da mais pobrezinha mas ainda mais honrada… venham eles.
Fazíamos cópias em cadernos com duas linhas de onde não podíamos fugir, ou a letra, e essas linhas regulavam toda a nossa arte e todo o nosso ofício de copiar, escrever e reescrever vezes sem conta, com letra cada vez mais perfeita, tudo o que já tinha sido copiado, escrito e reescrito com letra mais que perfeita vezes sem conta por gerações que, vezes sem conta olharam para aquelas duas linhas e pensaram como hei-de eu sair destas duas linhas, o que farei fora delas, e que, no entanto, tiveram que ir para a França, Alemanha, Venezuela, Brasil, Estados Unidos, Canadá, a diáspora dos crentes da Nossa Senhora e das duas linhas em papel mata-borrão.
Houve um tempo em que o Mundo era a preto e branco.
É verdade.
E o branco espalhava-se anarquicamente sobre o negro do quadro à medida que o Farinha, rapaz para os 12 anos que andava ainda connosco na 4ª classe e que compensava o fraco aproveitamento na aritmética e na gramática com soberbas prestações físicas e lealdade comprovada na Mocidade portuguesa – francamente aplaudido por todos nós que, não tendo a farda, sonhávamos vir um dia a tê-la - dizia eu, à medida que o Farinha tentava resolver um problema aritmético por entre vergastadas e reguadas, genuflexões e outras torturas caridosas muito em voga na época – nada que não consolidasse o verdadeiro carácter heróico de uma Juventude que se queria forte de ideais e de convicção inabalável – todos nós íamos rindo à socapa.
A páginas tantas, estava eu já a olhar pela janela tentando compreender o que era o barulho lá fora, entra o Senhor Director que segreda qualquer coisa à Senhora Professora que, extática, fica ali, vira para o Senhor Director, vira para o Crucifixo quando, finalmente, resolve tirar-nos da sala de aula e levar-nos para o salão principal – aquele onde víamos os slides do S. João Bosco aos Sábados de manhã.
“Meninos, houve uma… coisa e eu quero que todos fiquem quietinhos que eu vou telefonar para os vossos paizinhos vos virem buscar.”
Fiquei preocupado: nós não tínhamos telefone.
Comecei a juntar dois mais dois, os pais que vinham buscar os filhos e, atrapalhados pegavam neles e “ai Meu Deus, só espero que não aconteça nada” ou “ó Senhora Professora, Deus Nosso Senhor nos ajude que se eles entram por aqui…” e cheguei a uma conclusão, a única conclusão possível:
Os turras tinham invadido Portugal Metropolitano. 
